Morro das Neves
(Fotos mais detalhadas em http://www.behance.net/gallery/Threatened-Morro-das-Neves-Morro-das-Neves-Ameaado/2547003 )
O Morro das Neves é um lugar ameaçado pela expansão do Porto de Santos (o maior da América Latina), que se localiza em Santos, uma cidade brasileira do estado de São Paulo.
Muitas empresas estão comprando áreas naquele lugar para construir terminais de carga e novos atracadouros para os cada vez maiores navios que chegam. Além disso, o canal do porto está sendo aprofundado para a passagem de maiores calados. Duas dragas chinesas trabalham 24 horas para retirar a terra do fundo do canal e, em seguida, jogá-la a alguns quilômetros da costa. Nessa terra há detritos dos mais variados tipos, pneus, madeira, tóxicos, ferro, etc.. e tudo isso é despejado no meio do mar, ainda que a legislação vigente proíba atos como esse. O trabalho é cercado de grandes formalidades, mas na prática a legislação ambiental é desrespeitada. Eu, então técnico em arqueologia, e outros na mesma situação, vimos o lixo ser jogado no mar.
O avanço da economia e das atividades de mercado só obedece às regras ambientais na imaginação dos mais ingênuos e dos políticos, que precisam convencer os primeiros. Em outras palavras, os empresários que atuam nas imediações do canal do porto necessitam construir em áreas que estão cobertas por flora nativa e que ainda mantêm muitas construções arqueológicas importantes, como uma igreja jesuíta do século dezoito, encontrada por mim e por meu colega de trabalho.
Pescador
Há pescadores que estão se tornando muito pobres, porque a pesca está decaindo desde que outras atividades econômicas começaram a aumentar; especialmente aquelas que poluem a água onde os pescadores pescam e acabam com a fauna que tenta sobreviver. As tradições dos pescadores e suas técnicas de pesca (redes feitas manualmente, por exemplo) estão se perdendo no tempo e em breve nós não seremos capazes de reproduzir o modo de vida daquelas pessoas. Uma infinidade de cultura material sumirá dos arredores do porto e somente vestígios serão encontrados no futuro. Os arqueólogos trabalham atualmente na região e muitas vezes fazem papel de etnógrafos, registrando como vivem os habitantes ou frequentadores de lugares como o Morro das Neves. É trágico, pois os profissionais que atuam nessa região sabem que o resultado das suas pesquisas servirá mais para registrar algo que está fadado à destruição do que para prevenir desmatamentos contra a natureza e danos ao patrimônio arqueológico existente. Logicamente algumas descobertas de ordem arqueológica e pedaços de natureza serão preservados, mas tudo dentro de um contexto de formalidade mínima, para que o pouco ou nada que é preservado possa ser mostrado de maneira maximizada em palestras empresariais, em discursos políticos e em rodadas de negociações econômicas no exterior. Essa é a política de preservação ambiental brasileira, um grande engodo para inglês, chinês, francês, estadunidense e alemão verem.
Esse e outros tantos processos são executados sob a tácita autorização do governo brasileiro, que exporta para o resto do mundo uma imagem de desenvolvimento. Nas minhas recentes visitas à região do canal do porto, descobri que muitos pescadores sofrem de problemas que não poderiam existir naquele lugar – falta de água, de esgoto tratado, de escolas, etc.. – já que eles são vizinhos do maior porto da América Latina. Ora, não deveriam os êxitos econômicos desse porto tão imenso sanar as necessidades básicas dos que, de uma maneira ou outra, contribuem para ele? É óbvio que esses habitantes humildes jamais vão se beneficiar do progresso (maior senso comum do século) trazido pelo porto ou por sua expansão. A História nos mostrou os caminhos tortuosos percorridos pelo nosso país desde que nossos governantes e algumas famílias escolheram o atual modelo econômico, a fins do século dezenove. A análise fria do presente – não a que está centralmente iluminada e estampada nos jornais diariamente – mas a que se situa na penumbra[1] das explicações oficiais, essa nos mostra um futuro sombrio e dominado por políticos tecnocratas disfarçados de ambientalistas.
Morro das Neves II


3 comentários:
Em nome de alguns e de suas demandas abrimos mão de nossa natureza, das pessoas que carecem de maior atenção, enfim de nossa humanidade. Somos iludidos, tal qual os ingênuos citados no texto ou simplismente agimos pela "moral do canalha", fingimos não ver o que acontece ou nada fazemos, já que o problema não nos afeta diretamente. E assim caminha a humanidade, rumo ao "progresso e desenvolvimento".
PS: O peixe espada
Pois é, meu caro Espada, e agora querem explorar diamente no Parque Nacional da Serra da Canastra, em MG. Pra isso vão deixar a reserva 40% menor e ainda têm a coragem de nos tratar como ignorantes ao dizer que nenhum dano será feito à natureza. (AH-AH)
Meu deus, esse dissabor que eu sinto parece luto.
Saudades, meu velho!!
De seus textos e manifestaçoes artísticas pude matar um pouco agora, mas de ti ainda nao!
É uma merda nao me sentir surpreendido com esse tratamento dado aos pescadores...bom, parabéns pelo texto e pelas fotos! Mandou muito bem, como sempre!
Abraçoss
P.S.: agora, tenho que admitir que ri pra caralho com o video aí de baixo e com essa de "um boczinho num pega nada"! haha
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