domingo, 13 de dezembro de 2009

Sonho de 15 de maio de 2008

Hoje eu preciso contar um sonho. Ele tem muitos elementos simbólicos, como qualquer sonho, mas o mais importante é que eu o lembrei com alguns detalhes. Vamos a ele.

Estava num avião militar de pequeno porte, sobrevoando uma região desconhecida. Atrás de mim havia algumas mulheres sentadas, entre elas uma amiga muito querida, chamada Ana Luiza. De repente, vimos pelas janelas laterais aviões antigos, aqueles monomotores vermelhos e estilosos típicos da Primeira Guerra Mundial, manobrando num mergulho fantástico; em seguida alguns aviões cinzas da década de sessenta fizeram o mesmo e imediatamente recebi ordens de que eu teria que pular de pára-quedas naquele momento. Eu não titubeei nem um pouco, tinha uma sensação de que já havia feito aquilo antes, então foi fácil correr para um alçapão na parte traseira da aeronave e me preparar para o pulo. Não me lembro bem se foi nesse momento ou antes, mas vi pela janela um montanha verde altíssima em cujo cume se localizava uma estrutura gigante, como se fosse um templo ou algo que o valha, formado de alguns andares que subiam em círculo. Troquei algumas palavras com minha amiga e recebi meu pára-quedas, que, na verdade, era uma faca sem serra. Sim, uma faca dessas comuns de passar manteiga no pão. E o uso dela, como pára-quedas, era o seguinte: deveria a colocar na minha boca, mordendo-a transversalmente. Assim o fiz e pulei. Meu mergulho no céu foi memorável, demorei um pouco ainda para tentar ativar qualquer mecanismo que fizesse inflar o dispositivo, mas quando enfim resolvi ativá-lo, nada funcionava. Não sabia operar a faca e então caí em queda livre. Por sorte vi um fio pouco antes do chão aparecer e segurei nele. Era um fio de energia, desses de poste, que não me eletrocutou, mas me ajudou incrivelmente a descer ao solo sem um arranhão.

Uma vez em terra firme, me dei conta, com muita surpresa e alegria, de que estava na fronteira entre Argentina e Chile. Sabia disso porque vi uma região desértica, com picos nevados e, a prova irrefutável, a placa “Bienvenidos a la Republica de Chile” pintada de azul, vermelho e branco; tal qual ela está lá. Sei, pois estive de verdade nessa região exatamente no dia 31 de dezembro de 2006, indo para Santiago de Chile.

Um oficial fardado se aproximou de mim e perguntou o que eu fazia lá. Respondi em espanhol que era do Exército Brasileiro e estava lá em uma missão, bem como tinha uma cidadania chilena e precisava de ajuda. Para comprovar isso tudo, mostrei um documento plastificado e grande, o qual foi aceito com um sorriso. O sujeito, então, me levou cordialmente para uma zona de cidade, que desconfio ser Santiago, e me fez aguardar em algo que parecia um shopping ou um aeroporto. Pensei, naquele momento, que não tinha nem dinheiro nem cartão de crédito, e me lamentei, pois não poderia comprar nada e tampouco voltar pra casa.

Corta para eu no meu quarto na república, vasculhando minha gaveta de cuecas em vão. Pensei ou falei pra alguém: a viagem valeu a pena!


domingo, 6 de dezembro de 2009

A Morte e Eustáquio 3

Intervenção do Autor

Essa história é sobre vingança. O motivo, os processos e as consequências ainda não surgiram para que a narrativa tome o tom vingativo e prossiga até que o personagem concretize o que seus sentimentos sugerem. A sugestão é algo muito forte, mais ainda que a ordem ou a imposição porque incentiva racionalmente atos brutais, cuja justificativa jamais seria aceitável para o personagem se baseada apenas numa visão turva de vendeta, sem um objetivo claro.

Nada é mais perigoso do que o convencimento pela razão, pois ela é dúbia e serve a diversos propósitos. Eustáquio valer-se-á dela para incrementar a violência de seus atos, que serão baixos e covardes, como toda vingança deve ser. Quanto mais vil ela for, mais completa será sua realização. O senso comum nos convence de que a vingança faz mal; no entanto, quando analisarmos melhor o que se passará com o personagem, veremos que ela só faz mal na medida em que o convence de que ele é forte e não precisa pedir desculpa por tudo.

Eustáquio entenderá, à sua maneira, como a sensação da desforra lhe dá poder e aumenta o controle sobre sua vida.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O Rito e a Passagem




Alhear-se é deslumbrar-se. De tão distante que me sinto do meu próprio meio às vezes, olho para seus rituais com certo alheamento, como se cada passo para sua concretização fosse elaborado com cuidado e delicadeza nunca antes vistos por mim.

Fui chamado, como convidado de honra, para fazer parte de um rito de passagem dos mais importantes. Perante duas centenas de pessoas e um deus único, representado em corpo pregado pelos pulsos e calcanhares numa cruz de madeira, selou-se a união espiritual de duas pessoas. O motivo foi uma categoria relativamente nova dentro desse tipo de cerimônia: o amor. Nova porque outras a antecedem, como alianças entre famílias, reprodução da espécie, golpe do baú, entre outras.

O processo funciona mais ou menos assim: o homem, com roupa formal, atípica para os padrões atuais, de cor preta, adentra num templo por um corredor ladeado de bancos, geralmente de madeira. A mulher, sua futura parceira nessa empreitada social e espiritual, entra em seguida, trazida por seu pai, de braços dados com ele. A música preenche toda a espera do público, instalado nos bancos de madeira e organizado espacialmente segundo relações de parentesco entre o homem e a mulher. O primeiro ponto de convergência total de atenções é a entrada da moça com seu pai, quando a música, geralmente uma marcha, soa mais alto e as pessoas se levantam. Os dois percorrem em passos lentos o mesmo caminho que o homem que chegara primeiro. Quando se aproximam, o pai entrega simbolicamente a filha para o seu novo parceiro. Esse simbolismo já foi menos simbólico em tempos passados, quando a mulher saía da tutela financeira e moral do pai para outra, a do homem a quem estava prestes a se unir. No caso do rito que presenciei, a mulher não depende mais dessa tutela mas o gesto do pai é um testemunho de épocas passadas.

Então, o homem e a mulher, de costas para seus parentes e amigos, escutam as palavras de um sacerdote vestido de branco. Ele é o representante do deus único naquele templo e tem o poder investido por aquela religião para unir o casal. De pé, o sacerdote passa a mensagem do deus para aquelas duas pessoas diante dele, como se fosse a condição de um contrato (1): "amarás na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza...". O amor ocidental, tal qual configurado nos nossos tempos, só pode ser exercido entre aquele casal e segundo aquela religião se transitar de um pólo a outro, sem que se perca no meio de um dos extremos. O final dessa mensagem é uma pergunta retórica, algo como "você aceita tomar essa mulher como sua legítima esposa [termo usado para designar a parceira a partir da hora em que eles se unem]?", ao que o homem responde afirmativamente. O processo também se repete em seguida com a mulher, que toma o homem como seu legítimo "marido" ou "esposo".

Qual o significado de pergunta, já que sabemos que ela é retórica? Ora, é uma cerimônia em que existem convidados, portanto pessoas que estão vendo a realização de algo. A união é feita pelo deus e as pessoas presentes são as testemunhas. Algumas delas exercem funções especiais, como é o caso dos "padrinhos", designados em casais pelo homem e pela mulher. Podem ser inúmeros. São as pessoas mais íntimas de uma das partes do casal ou de ambas; são uma forma de apoio e de confirmação do amor entre as partes, testemunhas da personalidade de cada uma delas.

A pergunta é feita para que todos ouçam o "sim", para que o casal se reafirme perante uma instituição que precisa saber oficialmente se é isso mesmo que eles desejam, já que, para aquela religião não é permitida a separação. O que pode ocorrer é um não reconhecimento da união, porém isso constitui exceção e só é processado após análise meticulosa, por motivos que aqui não serão vistos.

O segundo momento de convergência de atenções é ainda no altar, na troca de anéis de ouro entre o marido e a esposa, sinal do compromisso e do amor de ambos. O marido coloca o anel na esposa e vice-e-versa. Este, chamado de aliança, é o símbolo material do casamento, o objeto identificador que permite distinguir alguém como casado ou não casado.

Eles podem ser forjados sob medida ou não, mas na parte interna os anéis possuem o nome do casal. É uma lembrança contínua do compromisso que cada um assumiu com o outro e um sinal da devoção do casal diante da religião.

O fim geralmente se dá com a saída do casal do templo, após ser cumprimentado pelos padrinhos. Seguem festividades nas quais se oferecem aos convidados bebidas e comidas em homenagem ao marido e à esposa.


Logicamente a maioria dos casais que se casam hoje em dia não seguem suas vidas sob o código religioso estrito, mas costumam levar sua união para o templo uma vez que é um costume que se manteve, um resquício que da importância religiosa na vida das pessoas. Mesmo que o vínculo entre religião e casamento tenha se arrefecido, muitos rituais são realizados nos templos e acoplada discretamente a eles está também a confirmação da união fora do âmbito do sagrado: na cerimônia muitas vezes o casal assina documentos de união matrimonial com valor civil.

Um dos pedidos que o deus faz para o casal recém-casado é que ele constitua uma família, ou seja, tenha filhos. Ora, como qualquer contrato, este também apresenta direitos e deveres.

Os rituais que parecem ter perdido o sentido devido à inadequação à vida moderna, mas que ainda são praticados, não estão esvaziados de valor nem de significado. Não são unidades estanques, monólitos de uma cultura. Modificados, reapropriados, ressignificados, os ritos podem nos oferecer além das explicações sobre suas origens, razões para suas mudanças, ou seja, um olhar mais atento para os processos sociais.



Crédito da fotografia: Guilherme Palmeiras Brasil. Decoração do salão de festas do casamento do bédão.


(1).
"O Código de Direito Canônico, cânon 1055, baseando´se na Constituição Gaudium et Spes, nº 48, do Concílio do Vaticano II, assim define o matrimônio:
«Cânon 1055 ´ § 1º´ A aliança matrimonial, pela qual o homem e a mulher constituem entre si uma comunhão de vida toda, é ordenada por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à geração e educação da prole, e foi elevada, entre os batizados, à dignidade de sacramento.
§ 2º´ Portanto, entre batizados não pode haver contrato matrimonial válido que não seja, ao mesmo tempo,
sacramento».

Como se vê, o cânon define o matrimônio como aliança (ou como contrato), pela qual duas pessoas se dão totalmente uma à outra, a fim de se ajudarem mutuamente a atingir as finalidades que o Senhor lhes assinalou. Dessa mútua complementação nasce a prole, expressão do amor recíproco de esposo e esposa.", http://www.cleofas.com.br/virtual/texto.php?doc=ESTEVAO&id=deb0236, 12 de novembro de 2009.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Sem Legendas, Sem Explicações e Sem Contexto
















A Morte e Eustáquio 2

Centro-oeste, terras boas e preço barato eram as palavras que o pai de Eustáquio memorizara da conversa com os homens, que desceram dos burros ao mesmo tempo em que tiravam o chapéu palha da cabeça.

----- Boa tarde – falou o primeiro num português correto. O senhor é que é o dono dessa propriedade?

As mãos do pai do menino cobriram os olhos por causa do sol. Meneou a cabeça, afirmativamente, e cuspiu o pouco de tabaco ainda em sua boca.

----- A gente está aqui para oferecer uma barganha ao senhor.

Sentaram, o pai meio relutante e o filho, desconfiado. Os homens explicaram que o país estava crescendo e o governo precisava de mão de obra nas bandas mais ao norte. Indústria, comércio? Também, mas principalmente agricultores. Havia muita terra, mas pouco trabalho, e agora parece que o governo lançava um programa de incentivo ao povoamento no centro-oeste, com sorteio de hectares e insumos.

----- Pense bem, nós voltaremos em uma semana.

Os três sentaram na varanda da casa ao fim da tarde e o pai expôs a situação para a mãe. As sobrancelhas levantavam enquanto as ideias fluíam na cabeça dos dois. O menino ouvia sem voz e com a cabeça povoada de curiosidade, já imaginando o que haveria para além dos limites da estrada de terra. A mãe sabia por que estava esperançosa, era mais provável rever seus filhos com alguma mudança do que com o marasmo em que as coisas andavam. O feijão era bom para os três, mas não permitia reunir a família de volta.

Apesar da desconfiança, Eustáquio gostara da ideia de se mudar para uma terra mais plana e mais quente. Afinal, o que tinha ele a perder? Seu pai trocaria a propriedade em que viviam os três pelo dobro de terreno cultivável mais uma casa de madeira.

É lógico que o medo de ser enganado apavorava internamente o pai. O filho e a mãe estavam cegos em seus devaneios, cada um por motivos diferentes, mas ainda assim incapazes de compartilhar dos pensamentos do outro. Já ouvira histórias de vendas mal sucedidas e de tragédias familiares que começavam apenas porque alguém dera um passo em falso nos negócios.

Pesou os problemas e os benefícios de sua atitude. Alterou-a em sua cabeça sete vezes e constatou que não ir seria a melhor decisão. Mas algo em sua mente o impelia a fechar o negócio, trocar o feijão pela soja e ignorar o medo que sentia de ser passado para trás. A tensão foi minimizada pela empolgação da mãe e do filho, expressada com um sorriso sem força e algumas palavras ao vento.

Seria assim. Estava decidido. Esperaram a semana seguinte enquanto aravam a terra; seguiram suas atividades normalmente, a não ser pela distração que era o pano de fundo para todos seus pensamentos. A insegurança, quando ameaçava surgir, já era interrompida pela vontade do garoto de conhecer outros lugares, pela esperança familiar da mãe e pela confiança do pai.

O sol nasceu numa manhã fria e a névoa que começava a se esvair parecia engolir as árvores numa cortina cinza. Os dois homens voltaram como prometido, e junto deles havia um terceiro, com uma maleta escura. Da maleta saíram papéis e mais papéis; precisavam de rubricas, assinaturas e datas. O pai leu o contrato de permuta, entendeu uma ou outra coisa, depois releu sem prestar atenção, talvez para impressionar o filho, talvez para não se deixar enganar pelos homens. Estes, educados e simpáticos, esperaram sem uma palavra.

As costas do advogado serviam de mesa para a assinatura torta do pai de Eustáquio. Rubricar aquele monte de páginas o fez se sentir importante. E foi assim mesmo que o filho olhou para o pai.

Após a partida dos negociantes, o homem tinha em suas mãos três passagens de ônibus para uma cidade distante e uma cópia do contrato da terra permutada. A letra da máquina na folha de papel claro impunha certo respeito ao olhar de ambos, e estes tiveram medo de amassar o documento ou de dobrá-lo, como se essas atitudes fossem invalidá-lo.

Voltaram para casa, cada um segurando um maço de papéis na mão, e almoçaram. O sinal de mudança começava naquele exato instante: nunca num dia de semana os três almoçavam juntos.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Sobre meu Pai e a Fotografia


Talvez eu não escrevesse acerca da fotografia se eu pudesse fotografar mais. Mas um amigo me disse que esse negócio de dizer Não tenho tempo é mentira, é desculpa para adiar algo de que se tem medo, seja de se frustrar, seja de ir até o fim.

Eu conheci a fotografia com meu pai, quando tinha menos de 10 anos e ele me comprou uma máquina dessas genéricas. A primeira foto que bati conscientemente foi a de um latão de lixo azul, feito por nossos vizinho e colocado no quintal de cimento de casa. Provavelmente num sábado ou domingo de manhã, porque eu tinha o hábito de me levantar cedo, antes da minha mãe – mas depois do meu pai, que madrugava até no fim de semana.

Apesar de todas as minhas diferenças com meu pai, a fotografia é para onde nossos olhares convergem em certos momentos. Ele sempre me conta de imagens vistas na rua que dariam boas fotos, como uma fila de ônibus parada no ponto, esperando os passageiros subirem, com a névoa da manhã ainda encobrindo as copas das árvores da praça. Ou alguns garis fazendo a coleta do lixo à noite, suas feições, seus uniformes laranjas. Ele consegue ver isso tudo nas cenas diárias e eu sinto que ele nunca tenha andado com uma Leica ao braço, pois tenho certeza de que a técnica que ele adquiriria com o tempo e sua sensibilidade fotográfica fariam dele um ótimo intérprete de São José dos Campos e quem sabe do mundo.

Sempre que mostro para o meu pai as fotografias que eu faço, ele demonstra um interesse legítimo: me faz perguntas, tenta adivinhar o que eu quis e não quis fazer e até arrisca umas críticas ao modo como bati a foto, o que eu acho muito bom.

São poucos os nossos interesses que verdadeiramente se intereseccionam, mas a fotografia é um deles e compartilhar as minhas opiniões com ele sobre o tema me traz uma sensação que eu tinha na infância, talvez de cumplicidade, de saber que ele estava me compreendendo e que passaríamos um domingo inteiro brincando.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A Morte e Eustáquio


Seu Eustáquio ainda não conhecia o gosto do sangue quando morava no sul, nas terras cultivadas pelo pai. Ainda criança, o arado e a enxada moldavam seu corpo a cada movimento e retração dos músculos. Crescia sob influência cansada e honesta do pai, que cheirava café quando partia para o trabalho e suor quando voltava dele. O menino não hesitava em abraçá-lo mesmo assim, comia à mesma sombra da do pai e compartilhava de uma conversa geralmente monossilábica, envolta por expressões com as quais ainda Eustáquio não estava familiarizado. “Renda”, “lucro”, “posseiro”, “flagelo”. Ora, por que se preocupar com o que não se podia entender? Mais valia aproveitar o feijão morno por debaixo do arroz, com a galinha que parecia gritar sempre que os dois a espetavam com o garfo.

A volta para casa era uma imagem imutável: a enxada no ombro, as marmitas umas sobre as outras presas por um nó composto num lenço colorido, formando uma espécie de alça. O pai à frente, com passos rápidos que mal esperavam os de Eustáquio, como se distraídos do filho logo atrás, com pressa para a janta preparada pela mulher. O filho, no entanto, era uma cauda atenta da distração do pai; olhava para frente e o algodão suado da camisa do homem figurava como a vitória para o menino, que ia sorrindo e falando palavras sem sentido enquanto mexia a cabeça sem entender bem o motivo. Talvez quisesse imitar a fila indiana que via todos os dias, umas vinte crianças de camiseta branca e calças azuis que sempre passavam por eles em sentido oposto, com malas marrons nas costas. Liderando a fila, uma mulher de cabelos grisalhos num coque, saia até os joelhos e camisa branca ia silenciosa à frente das crianças. Mas estas se entrecutucavam em meio a risos abafados e a olhares de curiosidade lançados para o pai e o filho, que vinham frontalmente em relação a eles todo o fim de tarde.

Estabelecidos naquela região há mais de duas décadas, a família de Eustáquio possuía outros membros. Eram os irmãos mais velhos de Eustáquio, habitantes de outra cidade, num outro estado. Viviam na casa de tios que os acolheram sob a promessa de emprego de verdade numa cidade com mais oportunidades, segundo as letras mal escritas de uma carta que chegara há anos na pequena propriedade do pai do menino. Este ainda nem era nascido e seus irmãos já haviam emigrado, cada um com sua bagagem rala, uns trocados nas carteiras e um frio na barriga, só medido pelos soluços silenciados na despedida. O pai tinha o peito apertado, frustrado que estava com a impotência diante da falta de recursos para manter sua família junta. Aceitar as passagens e toda a ajuda dos irmãos numa outra cidade era a mesma coisa que enviar os filhos numa viagem só de ida para o desconhecido. Porque ele não conhecia a cidade para que enviava aqueles meninos e meninas, apenas sabia que era grande e lá tudo podia melhorar.

Com uma lágrima relutante e um tapa no ombro de cada um dos filhos, mandou-os embora para sempre, consciente da expulsão que sentenciava aos jovens, temeroso em relação ao futuro, enquanto via a mulher comprimir os lábios uns nos outros e encolher os ombros, como se quisesse enterrar a cabeça em seu próprio peito e chorar aquilo que reprimia em si.

Eustáquio nasceria alguns anos depois, temporão. O casal não esperava, mas por fim contentou-se com a novidade porque já sentia por demais só a casa. Veio o filho e as coisas pareceram melhorar para eles. Surgiram alguns compradores das primeiras safras de feijão do ano e já sorria de esperança a mãe de Eustáquio, iludindo-se de que seus filhos poderiam voltar para casa. O pai logo a dissuadiu dessa ideia, mostrando que aquele começo era insuficiente até para pagar a passagem de volta de um dos filhos. Não se tocou mais no assunto.

O pai, com o passar dos anos, tornou-se mais dependente da ajuda do único filho ali presente. A cabeça grisalha dava pistas do motivo da recente inaptidão com as ferramentas e das jornadas menos longas de trabalho na roça. O menino já era um adolescente, magro, mas forte, característica necessária para arar, plantar e colher junto a seu pai, gradualmente mais corcunda.

Os dias passavam iguais para a família. Talvez por isso nunca houve uma data exata em que dois homens montados em burros chegaram à plantação em que trabalhavam pai e filho.